segunda-feira, 19 de outubro de 2020

salto da cama puxado pelo choro de um cão. circulo a casa, toco o vidro de cada janela, úmidos, em busca de uma localização. procuro o cimento, todo o cimento ao redor da casa, e apesar de enxergar bem mesmo sem os óculos, não posso compactuar com o que vejo. abaixo, sob nuvens vagas, numa escala diminuída pela distância, a terra dividida exala seu calor vaporoso, culturas e extrações, o traçado afiado de estradinhas rurais, a terra dividida e inacessível, minha casa perpassa, ao alto, já sem lote, sem chão. identifico o aeroporto, tantos hangares sobre terras, e suponho que ainda estamos na região metropolitana. me atravessa um tremor atrás do pescoço e escuto o silêncio do choro do cão. me afobo. ele havia me chamado, mas a vista me ensurdecera. abro a porta que dá pro fundo da casa e reparo o bichinho enrolado em si, ele treme e se protege da precipitação. assim que me vê, minhas mãos erguidas e abertas, corre num salto, me escala, me lambe e lambe e entra. fecho a porta para cortar a entrada do vento. estamos num vôo incerto e sabe-se lá a que altura do chão.

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