segunda-feira, 19 de outubro de 2020

salto da cama puxado pelo choro de um cão. circulo a casa, toco o vidro de cada janela, úmidos, em busca de uma localização. procuro o cimento, todo o cimento ao redor da casa, e apesar de enxergar bem mesmo sem os óculos, não posso compactuar com o que vejo. abaixo, sob nuvens vagas, numa escala diminuída pela distância, a terra dividida exala seu calor vaporoso, culturas e extrações, o traçado afiado de estradinhas rurais, a terra dividida e inacessível, minha casa perpassa, ao alto, já sem lote, sem chão. identifico o aeroporto, tantos hangares sobre terras, e suponho que ainda estamos na região metropolitana. me atravessa um tremor atrás do pescoço e escuto o silêncio do choro do cão. me afobo. ele havia me chamado, mas a vista me ensurdecera. abro a porta que dá pro fundo da casa e reparo o bichinho enrolado em si, ele treme e se protege da precipitação. assim que me vê, minhas mãos erguidas e abertas, corre num salto, me escala, me lambe e lambe e entra. fecho a porta para cortar a entrada do vento. estamos num vôo incerto e sabe-se lá a que altura do chão.

segunda-feira, 1 de junho de 2020

capítulo um de um ________



Ao balanço de dois pontos ao avesso do som, deu a cantiga sobre o menino que cresceu vizinho da
sua avó, as famílias sobrepostas em casas que se atravessavam pelo cômodos. O relato diz que ele
a tinha em ternura, no avesso do sentimento que tinha a sua mãe com a mãe dela, em batalhas inter-
mitentes, entre refeições e raivas que acessavam os fios dos nervos, tremendo os dedos na beira de
um cigarro que encobria o resto do gosto da janta no céu da boca da casa.
Quando ia descobrindo os pêlos das serpentes, trocou com o pai um olhar que nunca mais caiu.
Continuava a gostar da avó o toque fácil das tardes na tevê, a capitania dos lares, suas voltas pela
rua com o olhar de um farol, a deter os avanços dos corpos sobre meios-fios. Mas tecia aos poucos
um desprezo, que na sua juventude o tomaria com culpa e uma devoção quase teatral por ela, que
ficava mais bonita enquanto a barriga derramava e as rugas lhe atravessavam a voz e a garganta.


O pai tomava pra si a parte das avós do menino, ambas a sogra a mãe dele, curvado sob o céu leitoso

dos feriados de comida, públicos e privados. Endurecia os traços ao menor agito, o que lhe ressecava
as frinchas do músculo e da pele, que tornou em rocha sem limo. Desapareceu num dia chuvoso,
escorreu e foi parar longe num antigo mar que tinha secado, onde esteve por uns anos que chamou de
deserto, só ele e ovos de aranhas. Quis ser exímio e ia escrevendo um livro que talvez estivesse no rol
dos eximiistas, não fosse sua falta de riscos e sua disposição final numa bancada de papelaria. 
O menino quis ser bom, jovem quis ser ótimo. Sua vida seguia em sobrepostas casas, até que o
mundo caiu junto dele num óbvio desfiladeiro. Uns achavam que estavam perdidos, outros acentu-
avam a normalidade, reunindo-se em cultos e paixões assassinas. Ele notou que as pedras estavam
voltando do deserto, dançando na língua dos fungos das folhas e das nuvens. Seu pai era uma pedra
que uivava, como que animada por um bicho ancestral, um lobo guará com trejeitos de cura e ramos
que desciam pelas mangas das roupas alinhadas: guaco, cebola, capim cidreira.
Ao inverso do esforço de ser bom, de destacar a genialidade, se coloca para este par nunca antes
imaginado, um homem e seu pai, a colheita duma tradição nunca antes assistida: ser sem esgarçar
nem esforçar o ser do gênio da pessoa, pois o esforço é a contabilidade do falhar, mancar pela imi-
nência duma perna que dobra seu passo, que dói, que esbarra e escuta.
É esse ser em úmida existência que, por tropeços e ondas, encontra-se com o rigor do movimento e
neste texto traduz de línguas esquecidas suas criações, tramando complexos nós sobre a história,
a matemática das frases, as artes da letra: convive o filho com o pai.
Foi uma catástrofe quando ele deixou as casas cruzadas das tias da mãe e da avó. As paredes ruíram
e soterraram ⅔ das tias, primos e primas. Seu avô, antes vadio e musculoso, agora era o cativo do
século. Das paredes saía uma grossa gordura de barro, escorrendo pelo piso e pelos quintais, alte-
rando a floração delas pra sempre: a quaresmeira dava flores vermelhas, os barbeiros eram cor-de-rosa
desde o ovo até a fase adulta, as acerolas ficavam enormes e com gosto de queimadura, amargas e
moles.

sábado, 30 de maio de 2020

sonho frio


No sonho eu pegava 2 ônibus que não me levavam pra casa.
Desci num ponto próximo a um casarão antigo que tinha sido transformado em padaria.
Do segundo andar uma vista deslumbrante pra serra. Tento ser amigável com a senhora que
trabalhava lá, deixo minhas coisas num sofá do andar intermediário que se abria na escada entre
o térreo e o andar superior. Tenho medo que me roubem. La está meu celular!

Passeamos por uma ladeira, a estrada sulcada numa montanha gelada. Chegamos num topo,
que eu conheço de outras ocasiões, onde há pequenas piscinas aquecidas, cobertas. Tenho a
impressão de que o horário de fechamento do parque se aproxima, mas as pessoas ali me
garantem que podemos usufruir à vontade. Vejo André na piscina conosco, quase uma banheira,
é pequena a piscina, quente. Ele faz um rebuliço no círculo de pessoas, dispostas com as costas
na borda da piscina, e nada na minha direção. Eu saio da minha beira então em direção a uma
terceira pessoa. Acaba assim.
múltiplas entradas num sonho
Em seguida descemos a ladeira, o dia terminando, pensando em ir pra casa.

Num momento encontro com Vinicius num museu com os corredores curtos e salas pequenas.
Vinicius lixa uma peça até desaparecerem suas inscrições. Vou até uma saleta de funcionários,

próxima à recepção, ter com uma moça que tento distrair.

êxito da voz - ponto pra escorrer voz

Na saída de um antigo teatro, vindo dum cômodo no ponto mais alto do edifício, de onde uma escada partia em pedaços o corredor entre as cadeiras, parado na saída, as mãos suadas e a boca presa entre os dentes, __________ asfaltava suas intenções mais emocionadas debaixo da sola do sapato.

Na transição entre o ar íntegro de dentro e o vento fresco que tangia a porta, as fibras estalaram seu som seco.